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Por Maria Carolina Marcello
BRASÍLIA, 14 Jun (Reuters) – O crescente clima de
desconfiança e descrédito na política tende a elevar a parcela
de eleitores disposta a votar em branco, nulo, ou simplesmente
se abster, o que aumenta as incertezas sobre o cenário eleitoral
e levanta dúvidas sobre a legitimidade e a estabilidade do
próximo presidente, avaliam especialistas.
Se em eleições passadas prevalecia a percepção que um
candidato com altos índices de rejeição seria pouco competitivo
na disputa eleitoral, em tempos de apatia e até mesmo de
indignação com a política, os níveis de repulsa do eleitorado
tornaram-se um denominador comum aos nomes colocados.
O cofundador do Instituto Update Caio Tendolini pondera que
o cenário ainda é muito nebuloso para previsões mais certeiras,
mas avalia que a tendência de elevação de brancos, nulos e
abstenções não deve ser revertida diante da desconfiança da
população e da agudização da crise de representatividade.
"Essa sensação acumulada durante muito tempo gerou essa
crise de confiança enorme que vai se manifestando e resulta no
voto nulo, no voto branco, ou até mesmo no voto de protesto",
disse à Reuters.
"É natural que essa crise de confiança se manifeste em um
voto que ou não escolhe ninguém, ou quando escolhe, é para se
vingar desse sistema, quase protestar contra esse sistema, de
alguma forma."
Pesquisa Datafolha divulgada no domingo mostra que 28 por
cento dos eleitores pretendem votar em branco, anular o voto ou
não votar em nenhum candidato nos cenários que não têm o nome do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa, quase 10
pontos a mais que o líder das preferências nesses casos, o
deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), que soma 19 por cento.
Com Lula no páreo, o petista tem 30 por cento das intenções
de voto e a soma de votos nulos e brancos com os que não votarão
em nenhum candidato cai a 17 por cento.
Os dados obtidos até o momento e os sintomas do clima
eleitoral dão indícios que um novo presidente da República, se
eleito com altos índices de abstenção e rejeição, não terá vida
fácil à frente do país
"Do ponto e vista de conjuntura, é o pior clima de todas as
eleições desde a restauração da democracia", avaliou a socióloga
e especialista em pesquisas de opinião Fátima Pacheco Jordão,
acrescentando que a pulverização de candidatos e a divisão entre
os partidos tornam o momento "pouco animador" e há o risco de a
atual instabilidade se agravar.
"A minha convicção é que se esse clima perdurar, realmente
vamos ter uma eleição que não dará legitimidade aos futuros
eleitos", argumentou.
Na mesma linha, Tendolini, do Update, prevê dificuldades
práticas a um candidato eleito com altos níveis de rejeição para
tocar seus projetos, negociar com o Congresso e cumprir
eventuais promessas de campanha.
"Isso é muito complexo. Para a estabilidade política, para o
tipo de reformas que o candidato quiser propor, para as
políticas públicas que vai querer propor, os acordos que vai
fazer, o olhar que quer dar, a história que quer contar, para a
sua gestão… é um desafio que me parece um pouco novo", disse.
Lula, que lidera com folga a disputa no cenário que aparece
como candidato, é o postulante com a segunda maior rejeição, com
36 por cento, atrás do também ex-presidente Fernando Collor de
Mello (39 por cento) e à frente de Bolsonaro (32 por cento).
O pré-candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, é rejeitado por 27
por cento, aponta a pesquisa, e Marina Silva, da Rede, por 24
por cento. Outros 23 por cento não votariam de jeito nenhum em
Ciro Gomes (PDT).

DE VOLTA PARA O FUTURO
Para Daniel Falcão, especialista em direito eleitoral do
escritório Boaventura Turbay Advogados e professor da
Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Brasiliense de
Direito Público (IDP), as características do contexto atual
remetem à conjuntura das eleições presidenciais de 1989, quando
Collor foi eleito.
"É possível que um candidato com uma baixa votação consiga
chegar ao segundo turno", disse o especialista, diante do quadro
de pulverização de candidaturas, da rejeição aos candidatos, e
aos índices de brancos e nulos.
Na ocasião, com mais de 20 candidatos a presidente, Lula
chegou ao segundo turno contra Collor obtendo 17,2 por cento dos
votos válidos na primeira rodada.
Segundo ele, ainda é cedo para se falar em aumento
expressivo de brancos e nulos — "pode haver crescimento, mas
não tão grande assim". É possível dizer, no entanto, que no
segundo turno os níveis de rejeição podem se traduzir na
nulidade do voto.
Para Falcão, que também é especialista em marketing
político, no entanto, o jogo ainda não começou e só deve
produzir efeitos palpáveis na segunda quinzena de agosto, com as
candidaturas já registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
e a campanha eleitoral propriamente dita em andamento.
"E ainda tem toda a questão do Lula. Todos sabem que essa é
uma carta que vai embaralhar o jogo", avaliou.
O ex-presidente está preso há mais de dois meses, cumprindo
pena pela condenação por lavagem de dinheiro e corrupção no caso
de tríplex do Guarujá (SP).
O petista, que alega inocência e diz ser alvo de perseguição
política, deve ser impedido de concorrer devido à Lei da Ficha
Limpa, mas o PT vem insistindo que ele é o candidato do partido.

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(Reportagem adicional de Eduardo Simões
Edição de Alexandre Caverni)
(([email protected]; 5511 56447702; Reuters
Messenger: [email protected]))


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