Clicky

Tesouro Direto Taxa Zero 728×90

Por Taís Haupt
SÃO PAULO, 13 Out (Reuters) – Aplicativos de transporte
urbano voltados exclusivamente para passageiras e motoristas
mulheres estão ampliando suas operações no Brasil, em meio a um
quadro de elevados números de violência contra a mulher em
grandes cidades do país.
Presente em seis cidades brasileiras, o aplicativo FemiTaxi
planeja expandir seus serviços para mais municípios no país e na
América Latina até o início de 2018, enquanto o Lady Driver, que
começou por São Paulo em março deste ano, iniciará operação no
Rio de Janeiro em outubro.
O foco no público feminino tem apoiado ambos os aplicativos
em um ambiente altamente competitivo, disputado por empresas que
têm recebido milhões de dólares em investimentos como Uber, 99 e
Cabify, as maiores do setor no país.
Um dos casos de violência contra mulher mais recentes e de
grande repercussão nas redes sociais do Brasil ocorreu em
agosto. A vítima, a escritora Clara Averbuck, fez um relato em
seu Facebook de que foi estuprada por um motorista da Uber
UBER.UL que a levava para casa depois de uma festa na capital
paulista.
"Depois da divulgação da história da Clara (Averbuck),
tivemos um aumento de 188 por cento nos downloads do
aplicativo", disse Charles Henry-Calfat, presidente-executivo e
fundador do FemiTaxi, em entrevista à Reuters. Ele disse que
percebeu o mesmo movimento depois da divulgação de outros casos
de violência contra mulheres que usavam aplicativos de
transporte urbano.
A Uber baniu do aplicativo o motorista que atacou a
escritora e disse em nota à Reuters que "tanto motoristas
parceiros quanto usuários estão sujeitos ao mesmo código de
conduta e podem ser punidos, até com banimento, caso
desrespeitem as regras".
Procurada pela Reuters, Clara preferiu não se manifestar
sobre o assunto.
Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado
de São Paulo, os registros de casos de estupro de janeiro a
agosto subiram 3 por cento sobre o mesmo período de 2016. A
conta inclui 326 estupros consumados. As tentativas registradas
de estupro dispararam 41 por cento, para 31 casos.
Já no Rio de Janeiro, segundo o Instituto de Segurança
Pública do Estado, foram registrados 3.134 estupros de janeiro a
agosto de 2017, alta de 2,2 por cento em relação ao mesmo
período do ano anterior.

CULTURA MACHISTA
O FemiTaxi conta com 20 mil usuárias por mês e 1.130
motoristas mulheres em São Paulo, Goiânia, Belo Horizonte, Rio
de Janeiro, Campinas e Santos.
O fundador Calfat disse que planeja expansão para mais duas
cidades brasileiras dentro de 2 ou 3 meses, sem revelar quais, e
espera lançar seus serviços em outros países da América Latina
no primeiro trimestre de 2018, inicialmente na Cidade do México
e Buenos Aires.
O Lady Driver, que afirma atender mais de 100 mil usuárias
com cerca de 8 mil motoristas em São Paulo, se prepara para
lançar seu serviço no Rio de Janeiro no final de outubro,
afirmou à Reuters Gabriela Corrêa, presidente-executiva e
fundadora da empresa. Ela acrescentou que pretende iniciar as
operações na capital carioca com pelo menos 1 mil motoristas
cadastradas.
Gabriela, que morou no Equador, disse que a empresa estuda
outras expansões no Brasil e na América Latina, mas ainda não
definiu datas. "Peru é um país que todo mundo pede para levar o
Lady. Peru, México, Equador são países que têm uma cultura
machista, essa cultura latina é muito machista, então a demanda
é muito grande."
Uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança
Pública, realizada pelo Datafolha e divulgada em março deste
ano, mostrou que cerca de 66 por cento dos brasileiros
presenciaram agressões contra mulheres em 2016. A percepção de
73 por cento da população é de que a violência contra mulheres
aumentou, sensação compartilhada por 76 por cento das mulheres.
A insegurança não é receio apenas das passageiras, mas das
próprias motoristas. Segundo levantamento realizado pelo
FemiTaxi, 75 por cento das motoristas se sentem inseguras em
transportar homens à noite e 68,6 por cento já recusaram
corridas de homens por medo de serem assediadas.
De acordo com o levantamento, realizado em agosto deste ano
com 200 mulheres, 47,9 por cento das motoristas já sofreram
algum tipo de assédio enquanto trabalhavam.
Única das grandes empresas do setor a ter uma versão de
serviço voltada ao público feminino, a 99 afirmou que decidiu
implantar a opção "99 Motorista Mulher" depois que uma pesquisa
da empresa com 36 mil passageiros mostrou que mais de 70 por
cento deles apontaram um serviço dedicado como solução preferida
"para aumentar a segurança e comodidade", disse a empresa à
Reuters.
O serviço, lançado em outubro de 2016, permite que mulheres
e crianças escolham ser atendidas por uma motorista. Após um
ano, o opcional é o segundo mais procurado pelos usuários da 99,
perdendo apenas para os pedidos de carro com ar-condicionado,
afirmou a companhia, que tem mais de 300 mil motoristas e 14
milhões de usuários registrados no país.
A Uber, que não tem versão do serviço voltada
especificamente para o público feminino, afirmou que investiu
200 milhões de reais em janeiro em uma central de atendimento 24
horas que responde às denúncias de má conduta na plataforma, de
motoristas e usuários.
A empresa acrescentou que também lançou em março material de
treinamento para seus motoristas, desenvolvido em parceria com
uma revista feminina e a iniciativa da Organização das Nações
Unidas (ONU) que busca desenvolver igualdade de gênero e
direitos das mulheres, ONU Mulheres, sobre como tratar bem as
usuárias do serviço.
A Cabify, que também não tem versão feminina da plataforma,
informou que também conta com um serviço de atendimento 24 horas
dentro do próprio aplicativo para usuários e motoristas e
central telefônica para os condutores. A empresa disse à Reuters
que além de um "rigoroso processo para o cadastramento de
motoristas", realiza palestras informativas presenciais sobre
atendimento de qualidade e segurança.

MetaTrader 300×250

INVESTIMENTOS
Segundo Calfat, do FemiTaxi, desde o lançamento do
aplicativo, em dezembro passado, a empresa recebeu 500 mil reais
de investimento e registrou crescimento de 25 por cento ao mês
em corridas. O aplicativo deve voltar a buscar recursos em
dezembro deste ano e espera levantar 3 milhões de reais, disse o
executivo.
Já o Lady Driver, que recebeu 1 milhão de reais em uma
rodada de injeção de recursos liderada pela holding de
investimentos em startups Kick Ventures, planeja uma segunda
captação para este mês.
A estudante de Direito Ana Luiza Procopio, 18 anos, que usa
o Lady Driver há dois meses, afirmou que essa é uma forma de
usar um serviço mais seguro, e "que o único problema é que, por
terem poucas motoristas, geralmente os carros demoram mais para
chegar do que em outros aplicativos (em torno de 8 a 10
minutos)".
Já Luciana Fernandes, estudante de 18 anos, que também
começou a usar o serviço para "sentir mais segurança", acredita
que os aplicativos femininos de transporte "empoderam as
mulheres" e espera que a oferta de carros cadastrados por eles
cresça no futuro.

(Edição Alberto Alerigi Jr. e Maria Pia Palermo)
(([email protected]; Reuters Messaging:
[email protected]))


Assuntos desta notícia

Join the Conversation