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Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 13 Abr (Reuters) – Associado ao crescimento do
consumo de cafés de melhor qualidade, o Brasil observa uma
intensificação da produção de grãos especiais arábica para além
das tradicionais regiões cafeeiras de Minas Gerais, Estado
dominante no setor no maior produtor e exportador global da
commodity.
"Antes se falava muito dos cafés da Mantiqueira, mas vemos
agora cafés incríveis em outras regiões, no Norte Pioneiro do
Paraná, Mogiana Paulista, Cerrado, região do café mais caro do
mundo no Cup of Excellence", disse a presidente da Associação
Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Carmem Lucia Chaves de
Brito.
Participando de evento que escolheu alguns dos melhores
cafés do Brasil, na noite de quinta-feira, ela disse à Reuters
que a produção brasileira de arábicas especiais deve crescer
este ano na esteira da safra recorde, fruto de investimentos e
novas técnicas agrícolas, mas também porque muitos cafeicultores
estão se voltando para a produção do grão que tem maior valor
agregado, em busca de melhores lucros.
"No passado, era em torno de 5 milhões de sacas (a produção
de cafés especiais do Brasil). Mas a gente acredita que é muito
mais do que isso", comentou ela, produtora em Três Pontas, no
Sul de Minas Gerais, região que congrega grande parte da
produção da melhor bebida do país.
Carmem Lucia ressaltou também entre as áreas de expansão na
produção de cafés especiais a Serra do Caparaó, entre o Espírito
Santo e Minas Gerais.
Ainda que os cafés especiais representem uma parcela menor
das cerca de 60 milhões de sacas que o Brasil espera colher em
2018, a presidente da BSCA ressaltou que está crescente a oferta
de produtos mais finos de outras regiões produtoras que não as
de Minas Gerais, o que dá mais opções para compradores que
precisam buscar tal produto em diversos países para formar o
melhor "blend".
"O Brasil cultiva cafés com características sensoriais e
atributos diferenciados em todas as regiões. O comprador, em
geral, tem que ir para outros países para comprar cafés com
atributos sensoriais diferentes. No Brasil, ele pode encontrar
produtos com todas essas características", salientou Carmem
Lucia.
O resultado do 27º concurso de cafés especiais da
torrefadora italiana illycaffè, na noite de quinta-feira, em São
Paulo, sinalizou esse movimento citado pela dirigente da BSCA.
Entre os 40 finalistas da disputa, a maioria é de Minas
Gerais, que produz mais da metade de todo o café do Brasil. Mas
a última edição do concurso promovido pela torrefadora registrou
entre os ganhadores mais cafeicultores de outras áreas do que
foi visto nos últimos anos: três de São Paulo e um de Goiás. No
ano passado, por exemplo, apenas um produtor não era da região
mineira.
"Temos um microclima bastante especial, nossa região tem
características próprias, altitude, é frio no inverno, a
maturação é tardia, a gente começa a colheita em agosto e não
pega chuva na colheita", contou sobre o seu produto Daniella
Pelosini, de Pardinho, centro-oeste paulista, que ficou em
quarto lugar na disputa.
Plantando em uma propriedade de 50 hectares comprada pelo
pai na década de 1970, após a chamada geada negra que dizimou a
cafeicultura nacional, Daniella disse que consegue fazer o
produto especial em cerca de 50 por cento de sua colheita.
"Não tenho dúvida de que apostar no café especial é o
caminho… O consumo do especial cresce absurdamente mais. O
café está percorrendo o caminho do vinho, tem despertado mais
interesse das pessoas."
Segundo ela, o crescimento da produção de especiais é bom
para toda a cadeia.
"Não existem dois produtos (cafés) iguais, não acreditamos
em concorrentes no mercado de especiais, existe o que o
comprador está buscando naquele momento", disse Daniella,
acreditando que produtores do norte do Paraná e Espírito Santo
poderão se juntar aos finalistas do concurso no ano que vem.
Massimiliano Pogliani, o presidente-executivo da illycaffè,
cujo blend é composto por cerca de 50 por cento de café arábica
brasileiro, disse que é importante ter uma diversificação de
regiões também para garantir a oferta de especiais, embora ele
tenha destacado que o aroma de algumas origens, como da Etiópia,
por exemplo, é único.
"O café é muito ligado a certos perfis aromáticos, que estão
ligados à origem e ao 'terroir'…", afirmou ele à Reuters,
ponderando que "quanto mais qualidade de mais regiões, mais o
setor fica protegido de problemas que podem atingir a produção.

SURPRESA DO CENTRO-OESTE
Obtendo a sexta colocação no concurso nacional com menos de
dez anos na atividade, o café da família Zancanaro mostra como
se pode produzir uma bebida de qualidade em uma região pouco
tradicional da cafeicultura, como o Centro-Oeste brasileiro.
Plantando 902 hectares de café em Cristalina (GO), com dez
pivôs de irrigação, os Zancanaro ainda estão tentando recuperar
o investimento que fizeram no negócio, em colhedoras, silos,
beneficiamento. Mas isso não é motivo de desânimo para a
família, que trocou o plantio de soja e feijão pelo café
especial como forma de obter melhores ganhos.
"Ainda está empatando… No curto prazo acredito que dá pra
recuperar sim o investimento", disse Cristiane Zancanaro, da
família que ficou entre os finalistas pela primeira vez no
prestigiado concurso, conseguindo também a melhor colocação do
produto de Goiás.
A certeza de lucros no futuro vem do preço pago pelo café
especial, quase o dobro do valor de mercado de um produto normal
em Goiás, e muitas vezes o triplo em outras regiões, disse ela.
Cristiane projeta atingir em algum momento um total de 40
por cento de café especial na colheita total da propriedade,
estimada em 40 mil sacas. Atualmente, este índice está em dez.
"Quando falo 40, as pessoas arregalam o olho. Mas temos que
sonhar… Se conseguirmos um pouco do nosso sonho, a gente já
está no lucro, nem que os nossos filhos realizem isso algum
dia", disse Cristiane, lembrando que muitas famílias de
cafeicultores estão na atividade há mais de cem anos.

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(Por Roberto Samora; edição de José Roberto Gomes)
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