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Por Alexandra Alper e Barbara Lewis
SANTIAGO, 17 Abr (Reuters) – Dois vazamentos em um mês, uma
paralisação de 90 dias e 58 milhões de dólares em multas não são
suficientes para enfraquecer o apetite da Anglo American
por seu atrasado e bilionário projeto de minério de ferro
Minas-Rio, no Brasil.
Comprado no auge do boom de commodities, há uma década, por
5,5 bilhões de dólares, o projeto da Anglo tinha previsão de
alcançar uma produção 26,5 milhões de toneladas até 2016. O
ponto forte da mina é seu minério de ferro de alta qualidade,
que atende ao objetivo da China, maior consumidor mundial, de
reduzir a poluição.
O Minas-Rio é o maior projeto em desenvolvimento da Anglo,
representando uma grande aposta no futuro do minério de ferro,
mas até agora só representa uma pequena parcela de seus lucros
totais, uma vez que ainda está em fase de elevação da produção.
O projeto atrasou devido ao complexo processo de
licenciamento no Brasil, e a produção agora tem sido prejudicada
pelos vazamentos no mineroduto, que ficará fechado durante uma
inspeção de três meses.
O Brasil tem colocado um foco maior sobre os padrões
ambientais em minas depois de vazamentos na refinaria de
Alunorte, no Pará, e nos dutos da Anglo.
O regulador ambiental federal do Brasil, Ibama, aplicou
multas contra a Anglo American no valor de 71 milhões de reais
após dois derramamentos no mês passado em um mineroduto que
transporta minério de ferro da mina de Minas-Rio. Isso soma-se
aos 125,6 milhões de reais de uma punição aplicada pelo Estado
de Minas Gerais em 4 de abril.
O Ibama disse que precisará avaliar um relatório técnico
fornecido pela Anglo após a inspeção de sua tubulação antes de
autorizar a retomada das operações. O Ibama não forneceu um
prazo para essa avaliação.
Os executivos da Anglo estão confiantes de que o Minas-Rio
–projeto que custou mais de 8 bilhões de dólares– atingirá a
meta de produção de 26,5 milhões de toneladas em 2020. Com
produção estimada em 10 milhões de toneladas para este ano, eles
avaliam que a unidade alcançará em breve seu ponto de equilíbrio
(break even)".
"Independentemente do vazamento, esperamos um fluxo de caixa
muito próximo do break even (neste ano)", disse à Reuters o CEO
da Anglo American para o Brasil, Ruben Fernandes, acrescentando
que espera que a empresa obtenha uma licença final vital no
país.
Mas alguns veteranos do setor veem os problemas financeiros
como muito pesados, uma vez que a Anglo continua pagando os
custos fixos enquanto deixa de receber receitas por sua cara
mina.
"Isso sem dúvida é um revés" para a Anglo, disse Roberto
Castello Branco, ex-executivo sênior da Vale e membro do
conselho da Petrobras, a respeito do vazamento no Minas-Rio.
Ele acrescentou que o episódio também é negativo para a
indústria de mineração brasileira, que agora pode enfrentar
exames mais rigorosos para a operação de minas, uma vez que o
país tem sofrido repetidos danos ambientais causados ??pela
mineração.
"É uma situação em que todo mundo perde", disse Branco.
Mineradoras rivais já cortaram a produção após seus próprios
vazamentos. A norueguesa Hydro diminuiu pela metade sua
capacidade na refinaria de alumina Alunorte após um vazamento,
enquanto a Samarco –uma joint venture entre a BHP
e a Vale — ainda não retomou a produção após
o rompimento de uma barragem em 2015 que matou 19 pessoas.
Recuperar o investimento inicial da Anglo é complexo, mas
não impossível, disse Fernandes.
Ele não abriu números sobre a receita que deve ser perdida
durante a paralisação nos próximos meses no Minas-Rio e destacou
à Reuters que o foco está em "uma produção estável de 26,5
milhões (de toneladas), de acordo com o projeto".
Sem uma permissão para expansão, o Minas-Rio pode ficar sem
minério no final deste ano.
Executivos da Anglo minimizaram o problema do duto, dizendo
que os vazamentos não eram tóxicos e que foram contidos
rapidamente.
"Devemos estar prontos para solicitar a licença de operação
no terceiro trimestre deste ano", disse Fernandes.

PRÊMIO AO FERRO
O Brasil tem muito em jogo quando se trata da rigidez de
seus reguladores ao zelar pela segurança de minas, dado que o
país está bem posicionado para abastecer os Estados Unidos, cuja
guerra tarifária do presidente Donald Trump visa impulsionar a
indústria siderúrgica nacional.
Uma indústria norte-americana mais robusta precisaria de
mais minério de ferro, e o Brasil está geograficamente na região
certa para oferecer o produto, tendo obtido uma isenção
tarifária junto aos EUA.
"Se o preço do minério de ferro continuar alto, será um
ativo muito lucrativo", disse Steve Magill, diretor na UBS Asset
Management, um dos 20 principais acionistas da Anglo.
"Mas temos que reconhecer que, devido a erros do passado, a
empresa gastou uma quantia enorme nisso, então o retorno sobre o
investimento total não será bom."
Dito isso, a Anglo superou seus pares neste ano em parte
devido à maior eficiência na produção de carvão e minério de
ferro a granel e à forte produção de suas operações de Kumba, na
África do Sul.
Para o ano de 2017, as divisões mais lucrativas da Anglo
foram a de carvão, seguida por minério de ferro e manganês,
representando respectivamente 32 e 27 por cento do Ebitda.
O analista da RBC Capital Markets, Tyler Broda, disse que o
banco continua vendo "um aumento relativo na perspectiva da
Anglo American contra os pares em uma visão de 12 meses", porque
ela se recuperou bem do "crash" de 2015 e 2016 ao cortar custos
e aumentar a eficiência. Mas a obtenção de licenças continua
sendo uma preocupação.
A CEO global da unidade de cobre da Anglo American, Hennie
Faul, disse que "cada país tem seus próprios desafios", mas que
o balanço da companhia está bem posicionado para que ela
continue desenvolvendo seus ativos no Brasil, que também incluem
o níquel.
"Certamente não estamos tentando sair do Brasil", disse Faul
à Reuters em Santiago, no Chile.
(Reportagem adicional de Dave Sherwood e Fabian, em Santiago
e Marta Nogueira, no Rio de Janeiro)
((Tradução Redação São Paulo, 5511 56447765))
REUTERS JRG LC

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