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(Texto atualizado com declarações e mais informações)
Por Marta Nogueira
RIO DE JANEIRO, 1 Jun (Reuters) – Pedro Parente renunciou à
presidência da Petrobras nesta sexta-feira, em meio a
discussões e pressões sobre a política de preços da petroleira
estatal desencadeadas por uma grande paralisação de
caminhoneiros contra a alta do diesel ter causado forte impacto
na economia do país.
A saída, que veio depois de diversas negativas da Petrobras
de que o executivo fosse deixar o cargo, surpreendeu o mercado e
levou a bolsa paulista B3 a suspender a negociação de ações da
estatal no início do pregão.
Após a liberação, as ações preferenciais e
ordinária chegaram a cair 21,5 por cento e 22,3 por
cento. Às 15h06, os papéis tinham recuperado algum terreno, mas
ainda sofriam forte quedas, de 12,9 por cento e 12,4 por cento.
Em sua carta de demissão, dirigida ao presidente Michel
Temer, Parente disse que movimentos na cotação do petróleo e no
câmbio elevaram os preços de derivados, "magnificaram as
distorções de tributação no setor" e levaram o governo a buscar
alternativas, com a decisão de subsidiar o consumo de diesel.
"Tenho refletido muito sobre tudo o que aconteceu. Está
claro, sr. presidente, que novas discussões serão necessárias.
E, diante deste quadro fica claro que a minha permanência na
presidência da Petrobras deixou de ser positiva e de contribuir
para a construção das alternativas que o governo tem pela
frente", escreveu Parente.
"Não tenho qualquer apego a cargos ou posições e não serei
um empecilho para que essas alternativas sejam discutidas",
acrescentou.
Uma fonte da estatal, que pediu para não ser identificada,
se disse surpresa com a renúncia de Parente.
"Talvez, alguma coisa que ele tenha dito, que era
absolutamente fundamental, não tenha sido possível. E ele sempre
falou que enquanto havia liberdade, independência, e a direção
correta, ele ficaria", disse a fonte à Reuters.
"Agora o momento político foi realmente muito grave, essa
situação toda, o país parou. Pode ser que ele esteja avaliando
que isso seja um ato também de grandeza para facilitar que as
coisas continuem a avançar", acrescentou a fonte.
Uma segunda fonte da Petrobras afirmou que Parente já tinha
manifestado algum incômodo com o que vinha ocorrendo, que ele
estava sob pressão, mas não tinha falado em renunciar.
Segundo a fonte, alguma mudança na política terá que ser
realizada.
"Não dá para voltar ao controle de preços e ficar na
paridade internacional… temos que encontrar o meio do caminho
e ver se há nesse meio do caminho outras alternativas que não
venham afetar a empresa", disse a segunda fonte.
A Petrobras informou que a nomeação de um presidente
interino será examinada pelo Conselho de Administração ainda
nesta sexta-feira e que a composição dos demais membros da
diretoria executiva da companhia não sofrerá qualquer alteração.
Uma das fontes disse que a o conselho irá se reunir às 16h.

SENSIBILIDADE SOCIAL
A renúncia de Parente ocorre diante de uma forte pressão
sofrida com a paralisação de caminhoneiros contra os valores do
diesel, que provocou um desabastecimento generalizado e afetou
diversos setores da economia.
Diante da greve, que o governo disse na quinta-feira ter
chegado ao fim após acordo com a categoria, a Petrobras
concordou em reduzir a frequência dos reajustes do combustível
por um determinado período, contando que a União pague pelos
prejuízos causados à empresa.
O presidente do Senado Federal, Eunício Oliveira, disse em
sua conta do Twitter nesta sexta-feira que "o presidente de uma
empresa monopolista como a Petrobras, precisa reunir visão
empresarial, sensibilidade social e responsabilidade política".
Sem detalhar, Eunício defendeu ainda que a Agência Nacional
do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) "deve ter
participação mais ativa na formação dos preços dos
combustíveis."
À Reuters, o diretor-geral da ANP, Décio Oddone, afirmou
desconhecer a afirmação feita por Eunício e evitou comentar os
movimentos na Petrobras.
"Não tenho nenhum comentário em relação a isso, é uma troca
de executivos de uma das empresas que a gente regula, como
tantas outras. É uma questão interna da Petrobras", disse
Oddone.
A possível ausência de sensibilidade de Parente, na
administração da política de preços da Petrobras, foi citada
ainda por especialistas de mercado, que defendiam as medidas que
vinham sendo implementadas pelo ex-presidente.
"É fácil dizer após, vendo depois do que aconteceu, (mas)
faltou sensibilidade do governo e da Petrobras em relação a
política de preços, no alinhamento diário. O governo errou
porque não reduziu os impostos a tempo e a Petrobras não teve
sensibilidade em relação aos impactos diários", afirmou o
pesquisador do Grupo de Economia da Energia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Edmar Almeida.
"É um desastre para a empresa. O Parente era um fiador de
uma estratégia", acrescentou Almeida, destacando acreditar que
diversas medidas em curso, como as vendas de ativos, podem ser
paralisadas no curto prazo, até que se veja maior estabilidade
da empresa.
O ex-diretor da ANP Helder Queiroz afirmou que houve uma
interferência enorme do governo na Petrobras e que não viu com
surpresa a renúncia de Parente: "Ele certamente estava ali
desconfortável com a intervenção."
Segundo Queiroz, a política de preços da empresa tinha
acertos e também equívocos e que a decisão do executivo "aborta
o processo de reestruturação financeira, abala também a
credibilidade frente aos mercados".
Ele avaliou, no entanto, que a passagem para o reajuste
diário "foi um grande equívoco", não se mostrando sustentável.
"Quando o preço (do barril) subiu a 80 dólares/barril e o
câmbio se desvalorizou… faltou ali até sensibilidade política
com relação a como o mercado e os consumidores se posicionam e
se organizam", disse Queiroz.

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NOVA POLÍTICA?
Em um vídeo disseminado nas redes sociais por executivos da
companhia nesta semana, Parente defendeu a frequência diária de
reajustes dos combustíveis nas refinarias da Petrobras, dizendo
que a medida era fundamental para que a empresa defendesse sua
participação de mercado no Brasil.
O secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia,
Márcio Félix, afirmou a jornalistas em Brasília nesta
sexta-feira que o governo federal quer propor uma nova política
de preços para o consumidor final de combustíveis, mas sem
impacto para a Petrobras e demais empresas do setor.
"A gente espera antes, bem antes do final do ano, já propor,
já apresentar uma nova política para o consumidor, não para a
Petrobras ou para qualquer fornecedor", disse ele, após uma
reunião com distribuidores de combustíveis.
A política de preços da Petrobras vinha sendo alvo de
ataques de políticos e de sindicatos de trabalhadores da
companhia.
Os petroleiros chegaram a realizar uma greve na quarta e
quinta-feira contra as práticas de preços da Petrobras e contra
a continuidade da gestão de Parente.
Nesta sexta-feira, o coordenador-geral da Federação Única
dos Petroleiros (FUP), José Maria Rangel, comemorou a saída do
presidente da Petrobras como uma "vitória" da categoria e dos
caminhoneiros.
"Pedro Parente, vaza!"…"Tchau, querido!", escreveu o
sindicalista em mensagens nas redes sociais.
Sindicatos de petroleiros faziam forte oposição à gestão de
Pedro Parente, devido às decisões de cortes de pessoal, de
custos, vendas de ativos, dentre outros movimentos, como a
própria política de preços.
Já a reação do mercado e de investidores é bem distinta, uma
vez que Parente era amplamente visto como um executivo que vinha
obtendo sucesso na recuperação da companhia após anos de perdas
associadas a controle de preços e corrupção.
"O mercado, em geral, não acha a mínima graça. Desta vez o
nível de preocupação é maior… como efeito indireto, o mau
humor (do mercado em relação ao governo) vai dar uma piorada",
disse o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima
Gonçalves.

(Reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier, no Rio de Janeiro,
de Iuri Dantas e Luciano Costa, em São Paulo, e de Mateus Maia,
em Brasília
Edição de Raquel Stenzel e Alexandre Caverni)
(([email protected]; +55 11 56447719; Reuters
Messaging: [email protected]))


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