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O IPCA de outubro divulgado hoje veio ligeiramente abaixo da mediana das projeções e acelera 0,42% no mês e em 12 meses mantém os recordes de baixa em 2,7%, o menor patamar para o mês desde 1999. O resultado benigno da inflação ao consumidor do nosso principal índice não é exatamente resultado da ação tempestiva do nosso Banco central, se bem que é inegável – mas também impossível de calcular com previsão – que a postura do atual COPOM tenha ancorado certos ruídos de médio prazo. O fato é que o IPCA está caindo de maneira relevante devido à dois fatores exógenos à Autoridade Monetária. O primeiro é que em 2015/16 se fez um choque no preço dos itens monitorados ao se liberar de maneira abrupta as distorções do preço de energia elétrica por exemplo. Em 2015, para se ter uma ideia, o preço deste item do IPCA subiu nada menos que 60,4%. Se é um choque tem média próxima de zero, ou seja, não se deveria ter elevado os juros por conta disso. Tanto foi assim que em 2017 tivemos deflação de 12% neste mesmo item – que no mais iria cair de qualquer maneira – mas nesta altura já havia sido feito um aperto monetário o que transformou uma situação de desaceleração econômica (impactada também pelo choque de um insumo básico à produção como energia elétrica) que se somou ao ajuste recessivo da elevação da SELIC.

O segundo ponto, que também foge do raio de ação da Autoridade Monetária, foi um verdadeiro Bônus Climático que tivemos este ano que permitiu, entre outras coisas, o boom da agricultura no início do ano que jogou o PIB do 1º trimestre onde não estaria sem esta sorte. O efeito secundário do Bônus Climático tem sido, obviamente, a queda do grupo Alimentação dentro do IPCA, grupo este que representa ¼ de toda a inflação ao consumidor até 40 salários mínimos. Se antes sofremos com a alta do tomate, que em abril de 2013 havia subido em 12 meses 149,7%, hoje este mesmo tomate apresenta deflação de 17,8% e chegou a cair em janeiro deste ano nada menos que 46,6%.
Tomates fora zero o fato inegável é que o clima ajudou muito na queda da inflação. O grupo Alimentos e Bebidas registra hoje deflação de 2,14%. À guisa de comparação basta ver que a média do grupo alimentação entre 2011 e 2016 (na variação em 12 meses) foi de 9,67% e em 2017 a média está em 1,97% até setembro. Nunca antes na história desse país.

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Colocando em perspectiva temos então que o ajuste nas condições monetárias haviam sido feitos antes da atual gestão em resposta à uma alta de preços que foi um choque e que tivemos a sorte adicional de 25% do IPCA derreter sob influência de fatores exógenos à SELIC, que diga-se de passagem não é dança da chuva como alguns analistas fazem crer (elevar a SELIC para combater a queda da oferta de alimentos é inócuo).

Como uma das poucas boas notícias na economia do Brasil atual é a inflação em queda o Governo resolveu capturar este “orçamento” e utilizar este “espaço” para recapitalizar a Petrobrás que com sua política nova de preços praticamente dolarizou a gasolina e o gás de botijão doméstico, o que cria implicações de médio prazo para os modelos de inflação.

A questão que está na mesa é a seguinte. Sabemos que os reservatórios estão baixos tanto que estamos na bandeira vermelha patamar 2 nas contas de energia elétrica, logo seria razoável esperar por mais boas notícias dos céus?

Costumo brincar que a “boa notícia é que está ruim” para apontar que a desaceleração econômica está controlando em parte os salários e assim a inflação de Serviços. Talvez a boa notícia continue sendo que “está ruim”, porque se melhorar podemos ter uma inflação de demanda somada uma normalização da oferta de alimentos e em 2018 e toda a sorte pode virar azar. Outro exemplo de sorte azarada para o ano que vem é a PEC do Teto que entrará em funcionamento com a menor inflação em anos. O IPCA de junho deste ano, que irá reajustar as despesas do ano que vem, foi de apenas 3%.

Vocês acham mesmo que o Governo vai conseguir subir apenas 3% as despesas em ano eleitoral?

Que sorte! Só que não…

*André Perfeito é economista-chefe da Gradual Investimentos


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