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Estive, recentemente, em uma reunião na BM&FBovespa com André Demarco, diretor de Produtos da Bolsa. Também estava presente um especialista de tecnologia da Cedro Technologies, Thiago Reis, conversando conosco sobre blockchain, disrupção do ensino de finanças e mercados, experiência de usuário (UX) e novos modelos cooperativos entre startups e empresas financeiras tradicionais. Nesta conversa, como em dezenas de outras reuniões e apresentações que realizamos, ou ainda em qualquer bate papo sobre empreendedorismo e inovação, sempre surge a discussão em torno da experiência do usuário (UX) e também em torno de disrupção.

Há muita discussão em torno de disrupção e também muita confusão no uso do termo. Mas afinal de contas o que é a disrupção? Quando podemos dizer que de fato há uma disrupção? De acordo com o dicionário Dicio, disrupção significa “Ruptura, rompimento e fratura”. Em outras literaturas podemos encontrar simplesmente o significado de disrupção como sendo a “interrupção do curso normal de um processo”.

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Quando falamos em disrupção precisamos ter em mente que um novo produto ou serviço é disruptivo quando cria um novo mercado com rompimento de um mercado já existente, com processos e funcionamento mais simples. É disruptivo quando há um custo/benefício estritamente melhor e, em geral, é socialmente inclusivo, permitindo assim que pessoas que até então não tinham acesso a determinado produto ou serviço, passam a tê-lo.

Um forte exemplo de disrupção é o proposto pela Uber, que possibilitou o transporte de pessoas com um menor custo, mais simples e rápido, permitindo que milhares de pessoas pudessem ter o seu próprio emprego (dirigindo um Uber) como também que centenas de milhares de pessoas não transportadas por um serviço de Táxi, em função do custo, então passassem a utilizar um serviço de transporte com muita praticidade e custo acessível, sem falar no impacto positivo ao meio ambiente, retirando milhares de veículos das ruas. A Uber é um excelente exemplo de rompimento e ruptura dos tradicionais serviços providos pelos taxis em todo o mundo.

Neste sentido de disrupção, muito se fala nos últimos anos sobre as Fintechs e que estas novas startups de serviços financeiros chegariam ao Brasil para acabar com o reinado das instituições financeiras tradicionais oferecendo melhores serviços, menor custo e mais acessibilidade. Seria o fim dos bancos? De fato, acredito em determinado grau que tudo isto possa acontecer em certos nichos e serviços. Todavia, tenho crido mais no movimento da cooperação das Fintechs junto às instituições financeiras do que necessariamente nas Fintechs isoladas, competindo no desenvolvimento de novos mercados e serviços até então dominados amplamente por instituições financeiras como bancos e seguradoras.

Neste artigo listo alguns motivos pelos quais acredito mais no sucesso quando há cooperação das Fintechs e instituições financeiras do que na disrupção do mercado:

1. Regulatório e exigências legais. No Brasil há uma forte estrutura normativa, regulatória e de fiscalização do sistema financeiro nacional, dos participantes e serviços providos. Estes processos regulatórios custam caro, investimentos e tempo. Desta maneira, se uma Fintech permite se associar à uma instituição financeira, esta fica responsável pelos processos regulatórios e backoffice e a Fintech pode focar na experiência do usuário (UX).

2. Cultura e segurança. A cultura do brasileiro é, em geral, pela busca por segurança. Neste sentido, os serviços que tenham uma excelente usabilidade, mas que também estejam cobertos por uma sensação de segurança tendem a ser melhor aceitos no mercado e pelos brasileiros.

3. Time to market. A implementação de um excelente aplicativo, portal e tecnologia requer um tempo de desenvolvimento ou tempo para tropicalização. No caso de tropicalização cito as Fintechs e Startups estrangeiras que estão desembarcando no Brasil e precisam ajustar seus sistemas ao mercado brasileiro. Todavia, seja o esforço para desenvolver a Fintech ou para tropicalizar algo já existente, este tempo é mínimo se comparado ao tempo exigido para ter determinadas aprovações ou licenças de entidades ligadas ao sistema financeiro nacional como o Banco Central. O tempo para apresentar um projeto e aprová-lo pode causar o fracasso e a perda do time (tempo) para lançamento da solução.

4. Investimento. Embora a associação de uma Fintech à alguma instituição financeira (ou a várias) possa traduzir na divisão da receita (em maior ou menor escala), a Fintech pode se aproveitar da instituição financeira para prover determinados investimentos ou até mesmo reaproveitar determinado investimento já realizado pela instituição financeira em pessoas, processos, serviços de backoffice e tecnologias.
Por exemplo, uma Fintech poderia prover o melhor Mobile Banking sem ter a necessidade de criar um banco ou então criar uma excelente plataforma de investimentos sem a necessidade de criar uma corretora de ações ou distribuidora de títulos.

5. Base de clientes. Começar do zero é um trabalho árduo e custa investimentos em comunicação, publicidade, desenvolvimento de uma cadeia de parceiros de negócios e outros. A cooperação das Fintechs com instituições financeiras permite a essas herdar uma base de clientes já existente na instituição financeira e talvez até a associação da marca da instituição financeira, já conhecida no mercado, à Fintech.

6. Garantias. Conforme apresentei no item 1 – sobre os aspectos regulatórios – além do citado lá, para diversas atividades financeiras há a exigência de garantias reais, fianças e depósitos iniciais que garantam as operações. Em maior ou menor grau, dependendo do tipo de atividade, essas garantias são na casa de milhares de reais. Baseado no cenário brasileiro, de alta taxa de juros, a cooperação permite que a Fintech possa se aproveitar das garantias já providas pela instituição financeira sem que tenha que fazer os devidos depósitos.

7. Multi-instituições. Há Fintechs que provêm serviços cooperados à uma única instituição financeira, porém caso o modelo de negócios permita, uma Fintech poderia ser associada a diversas instituições financeiras, podendo trabalhar com um público e base de clientes maior e já existente. Em nosso exemplo de Mobile Banking, um Fintech poderia prover este serviço para dezenas de instituições financeiras em modelo não exclusivo, desta maneira poderia alcançar mais clientes e deixar o usuário escolher em qual instituição ele se sente mais confortável em utilizar, embora o front end seja o mesmo.

Certamente veremos nos próximos anos a disrupção de algum serviço financeiro, todavia tudo me leva a crer que empresas de tecnologia, startups e fintechs nacionais e estrangeiras tenderão a se associar mais às instituições financeiras do que travarem uma competição com estas.

*Leonardo dos Reis Vilela – CEO da Cedro Technologies


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